UTMB 2016 | OCC 55 KMS | 3500 D+ | PARTE 2

 

Manhã da partida!

Ponto base em Orsiéres na Suíça, onde para além da entrega dos últimos dorsais, uns dormiam mais um pouco, outros meditavam, outros tentavam acordar com café, uns reviam o plano para a prova.

Eu entre o despertar e o nervosismo habitual, punha a conversa em dia com a Anabela. Fiz que questão de partir com ela, apesar de querer arrancar um pouco mais rápido na partida. Ela e o marido são uma verdadeira fonte de inspiração e motivação, que transparece a olhos vistos para o filho, do qual fui professor. Muitas conversas tivemos sobre as corridas dos pais com os olhos dele a brilhar.

WC? Check! E tudo a postos numa praça de Orsiéres cheia de atletas prontos para os 55 kms!

O ambiente só aqui já era de excepção, cheio de crianças com desenhos e cartazes de motivação. Isto sim é festejar o desporto! Ambiente que se manteve por todas localidades que passávamos.

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Parti com o objectivo de terminar esta prova no melhor tempo possível.

Tinha na cabeça as diferentes etapas estabelecidas:

1º Champex-Lac;

2º La Giéte;

3º Trient;

4º Catogne;

5º Vallorcine;

6º Col des Montes e La Flégere;

7º Chamonix.

Na 1ª parte até Champex-Lac tudo correu bem e deu para perceber que logo que o tempo ia aquecer bastante. Sempre em ritmo rolante mas reservado para me resguardar para a 2ª parte.

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O meu maior receio foi sempre esta segunda etapa entre Champex-Lac e Trient, 17 kms, principalmente pela distância e pela possibilidade de não serem suficiente as reservas de água que levava.

Não só foram suficientes como existiam vários pontos de água naturais pelo percurso, como de populares nas povoações que nos disponibilizavam água.

Apesar de dura, até La Giéte foi das etapas mais fáceis e só mesmo o calor a meio e até Trient tornaram as coisas complicadas.

Aqui vários atletas ficaram pelo caminho, derrotados pelas elevadas temperaturas.

26 kms feitos e 1683 D+ já nas pernas. Hora de comer, algo mais consistente! Canja, pão com queijo e salame! Que bem que me souberam!

Paragem breve de 10 minutos para restabelecer as forças para a subida até Catogne, cerca de 5 kms, onde subiriamos até aos 2000 metros.

Saí de Trient com a estômago bem aconchegado pelas 14h00 e com cerca de 1h00 da barreira horária.

Tudo focado para manter um ritmo equilibrado ao longo desta subida, mas agora com o pico do calor, acima dos 1800 metros comecei a ter alguns problemas. Sei que normalmente só temos efeitos secundários da altitude acima dos 2400 metros, mas a verdade é que comecei a sentir alguma dificuldade em respirar e a cansar-me mais depressa.

Apesar da sombra dada pela vegetação, foram 5,5 kms feitos a um ritmo lento, 2,55 km/hora.

Alguns enjoos já nesta altura, mas que desapareceram na descida para Vallorcine.

Mais um posto de abastecimento para a canja, pão e queijo e para recuperar as forças para os 20 kms que restavam. A maior luta nesta etapa foi ver o número elevado de desistências de atletas de aguardavam transporte para Chamonix.

Nada melhor que sair a cantar com destino a Cols des Montets. Só parei de sorrir ao fim de 5 kms de corrida, com a frase bem presente “não gastes tudo que depois de Vallorcine tens umas subidas tramadas”.

E tinha mesmo! Valeu a conversa com a dupla de gregos, com o trio chinês, com brasileiros, argentinos e claro tugas! Porque para mim esta etapa foi a pior de todas! Um verdadeiro inferno sem fim, entre descansar, subir, subir, atirar-me para o chão, tudo servia para avançar mais um pouco.

A morte do artista, foi quando a atleta chinesa que ia à minha frente perguntou a um colaborador da prova que encontrámos na montanha, quanto faltava, “4 kms sempre a subir”. Ela desatou aos gritos de alegria e desatou correr, eu dei um grito que se deve ter ouvido do outro lado da montanha. Quando o teu cérebro está programado para correr 3 kms e afinal faltam mais um, o mundo desaba. E este 4 kms foram intermináveis, mas lá consegui chegar. Curiosamente a um ritmo mais rápido que para Catogne.

Mais uma canja e faltavam 7 kms até Chamonix. Aqui valeu mais um conselho tuga de colocar logo o frontal porque iria apanhar noite cerrada pelo caminho.

O nosso corpo tem coisas fantásticas e senti que podia dar tudo nesta última descida. E assim foi, respirei fundo e desatei a correr a um ritmo que nunca tinha corrido durante toda o percurso, já com mais de 12 horas de prova. Cheguei a fazer 3,5 minutos/km, num percurso marcado pelas raízes e pedras e caminhos entrecortados por riachos. Parecia que tinha começado a correr e só tive duas breves pausas, uma para puxar um atleta que tinha caído para uma vala e outra para levantar da minha queda provocada por ter desviado o olhar do percurso para o relógio.

Dei tudo nestes 7 kms, esta montanha merecia, depois da valente tareia que já tinha levado.

E que bem que soube ter pela primeira vez a família à minha espera na meta, logo em Mont Blanc. Ver o meu filho disparado na minha direção para correr comigo os últimos metros não tem preço.

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Resumindo esta foi sem dúvida alguma, a prova mais difícil até hoje em Montanha, com letra maiúscula. Uma montanha de uma beleza imensa, com um percurso muito variado. Pela minha experiência juntava 3 provas nesta, os degraus da Madeira, a dureza da Serra da Estrela e raízes em tamanho XXL de Sintra. Mas não há que comparar o que não tem comparação.

A excelente organização justifica plenamente o título de meca do ultra trail.

Uma prova a repetir de certeza e de preferência num futuro próximo.

Terminei em 13h14m19s na posição 1080.

Foram finalistas também nesta prova, mais 25 portugueses:

105º Roberto RODRIGUES 08:26:23
182º Hugo FERREIRA 09:03:04
211º Joao FERREIRA 09:14:39
239º Ricardo COSTA 09:23:44
251º Pedro GUIMARAES 09:26:59
283º Filipe MARQUES 09:34:24
296º Sofia FORTUNA 09:40:13
418º Nuno ALVES 10:16:00
462º Paulo OLIVEIRA 10:27:44
485º Ana Maria AMARAL 10:34:21
561º Pedro FALCAO-COSTA 11:00:44
583º Rui SOUSA 11:04:04
620º Jorge PACHECO 11:11:59
674º Alfredo MARQUES 11:26:45
796º Luís ANDRADE 11:53:13
796º Cristina FREITAS 11:53:13
853º Marilia NORO 12:08:24
947º Manuel FARO 12:34:42
993º Albertina MACHADO 12:46:54
1008º Solanja FERRAZ 12:50:48
1015º Paulo RAPOSO 12:53:30
1016º Sandra SIMÕES 12:53:31
1080º Pedro BARBEITOS 13:14:19
1081º João Ricardo DUARTE 13:14:24
1085º Joao Filipe MORAIS 13:16:14
1149º Sandra ANTUNES 13:49:41

Foram classificados 1218 atletas dos 1677 inscritos: 905 homens e 313 mulheres.

 

Pontos positivos | +percurso + organização +canal online para acompanhar atletas e provas

Pontos negativos | nada a apontar

Obrigado a todos os que acompanharam mais esta aventura e parabéns a todos os atletas portugueses nas diferentes provas do UTMB! Objectivo superado!

 

P.S. Ao português que no final me pediu um bom relato da prova, espero ter ficado à altura da expectativa.

Parte 1 do relato neste link.

 

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* foto Pedro Barbeitos e Miro Cerqueira Photography

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