MIUT | Madeira Island Ultra Trail 2015

Não consigo parar de escrever sobre esta aventura, o MIUT!  Uma semana passada e ainda não consegui digerir tudo o que trouxe deste desafio.

Parti para esta missão com o objectivo de usufruir o máximo da prova e sem a certeza de conseguir conclui-la, uma vez que já tinha falhado o Ultra Trail do Piodão por “lesão”.

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E tudo começou aqui…

Chegada à Madeira na sexta-feira, já pela noite, mesmo a tempo de fazer check-in na prova e seguir para o hotel.

A festa do MIUT já tinha começado há uns dias e a duas horas do arranque da prova rainha, sentia-se já o frenesim no secretariado e arredores.

Instalado no hotel com a família, os últimos preparativos para o dia seguinte. Mala para troca de roupa, revisão do percurso e estratégia de como lidar com ele (achava eu que seria capaz de prever o que aí viria).

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acho que não falta nada…

00h00 e tinha de acordar dali a 3h30 para a concentração em Machico, para o transporte para a zona de partida que sairia pelas 5h00. Escusado será dizer que não dormi nada. Ou melhor fui sonhando com os diferentes cenários possíveis, terminar, desistir, lesionar-me…

Tinha combinado com a minha família, que me acompanhou, que provavelmente regressaria mais cedo da prova. O apoio foi incondicional, independentemente do cenário final. Na verdade, o meu filho de 10 anos, deixou-me um recado final, “Tu nunca desistes.”.

Com toda esta bagagem emocional parti para Estanquinhos, pronto para a guerra! Adormeci profundamente na viagem, só despertando à chegada, ainda de noite. O frio e algum nevoeiro adivinhavam um percurso nada fácil pela frente! Para nós era o início, mas para os atletas dos 115 km, que já passam por ali, a prova já tinha começado pelas 00h00 e iam com 30 kms nas pernas.

Iluminados ainda pelos frontais que desenhavam um rasto de luz, começámos os 85 kms.

Descida tranquila até ao 1º CP do Rosário e a oportunidade de apreciar o nascer do Sol. Não querendo impor um ritmo muito puxado rolou-se tranquilamente.

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9,2 kms já estão, siga para a Encumeada

Chegado ao 2º CP e o primeiro repasto, a primeira canja, batatas fritas e bolo. Aproveitar ainda para reforçar as reservas com barras de cereais, não fosse faltar com o mix de frutos secos e os géis energético MyProtein que levava.

Até aqui o corpo respondeu bem, sem dores nenhumas e contabilizados 17,2 kms.

Mais uma pequena descida e começaria a sensação (repetida vezes sem conta ao longo da prova), olhar para o cimo dos montes que se avizinhavam e perceber que daqui a uns instantes estaria no topo. Degraus, degraus e mais degraus, e aqui, tal como nas descidas mais técnicas, que se seguiriam, a mais valia foram mesmo os bastões comprados na véspera.

Ainda aproveitei para tirar algumas fotos, mas as melhores ficaram registadas apenas na minha memória. O calor começava a apertar e apesar de ter começado a acelerar quando cheguei à última descida antes do CP de Curral das Freiras, as pernas começam a ressentir-se. Descida muito técnica, piso muito irregular e desnível acentuado.

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Curral das Freiras, pico do calor, hora de almoço, 30 kms e quase 7 horas de prova. Tempo para ligar para “casa” e recarregar motivações.

O cenário encontrado era de alguns atletas já bastantes esgotados, contrastando com a atenção e boa disposição dos voluntários que nos alimentavam e saravam as feridas e mazelas. Parecia um verdadeiro campo de batalha com os bastões em repouso.

Misturas quase caricatas, como o Zé Milho, que me enchia os bidons de isotónico, ao mesmo tempo perguntava com sotaque cerrado, “que propriedade milagrosa tinha o isotónico” e as belas “enfermeiras” de serviço com as pomadas, sprays e ligaduras.

Com todo o tratamento de luxo, o meu corpo começou dar sinais de quebra. Pedia descanso e o calor (que tento fugir como o diabo da cruz) tentava acabar com o carregar de baterias.

O calor, o calor, o calor. O meu calcanhar de Aquiles! Começo a subir a interminável parede até aos Picos e nem 1 kms passado e já pensava em abandonar a prova no próximo abastecimento. Apenas a  4,4 kms! O calor rapidamente me fez pensar se teria levado líquidos suficientes. Para o MIUT optei apenas por levar dois bidons de 500 ml à frente, deixando de parte o reservatório de 2 litros ás costas, que costumo utilizar noutras provas. Queria ir mais leve e pareceu-me a decisão acertada até aqui.

A subida foi penosa, tendo percorrido o 1º km em quase 30 minutos. A mente começou a pregar partidas, “podes desistir, não há problema nenhum…”, “a este ritmo não chegas antes das 20h00 ao Arieiro”. Em loop estes pensamentos viajavam pela minha cabeça, entre paragens e subidas mais ou menos lentas.

Muitos atletas a sofrer do mesmo mal e não havia outra solução até ao próximo posto. Estava decidido, no próximo posto, desistiria! Até ganhei novas forças a pensar no que iria jantar na companhia da minha família.

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sem comentários

Mas…há sempre um mas… as dúvidas começaram. Subíamos cada vez mais, mas parecia-me impossível aceder a esta zona de carro. A hipótese de ter transporte na Boca das Torrinhas parecia cada vez mais, remota.

Estes poucos kms pareciam intermináveis e fi-los sozinho, sem a companhia de nenhum atleta, parecia que não havia ninguém atrás de mim. Seria o último?

Chegado ao CP da Boca das Torrinhas e deparo-me com dois voluntários e uma pequena tenda e à volta… montanha! “Não posso desistir?”, ainda perguntei eu. “Não. Mas já falta pouco até ao Arieiro” , responderam-me.

Desolado, sentei-me as ver outros atletas chegar no mesmo estado que eu.  Mas uma prova de longa distância é como uma montanha russa, depois de estarmos de pernas para o ar, rapidamente mudamos de rumo. E foi isso que aconteceu, quando uma atleta, com um ar bastante fresco chega a transbordar motivação! Foi ela que me convenceu que faltava muito pouco e que o percurso era mais rápido do que até aqui.

Não tinha outra hipótese e o calor já nos tinha deixado, o que me deu outro vigor.

Lá segui para o Pico Ruivo e a partir daqui tive a companhia de um atleta finlandês, que só pelo nome já era uma força extra, Viking. Fomos à conversa entre muitas subidas, muitos degraus e algumas paragens.

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paisagens (e caminhos) de cortar a respiração…

O meu companheiro de degraus só dizia que na Finlândia não tinha montanhas destas, aliás não tinha nenhumas. E agora a um ritmo mais rápido, fui ganhando confiança e a acreditar que seria possível chegar ao CP do Pico do Arieiro antes de fechar.

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a subir…

O processo mental agora era outro, não faria sentido desistir a esta altura da prova e a noite previa-se longa. O objectivo agora seria fazer o máximo de kms antes de anoitecer.

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agora a descer…

São estranhos os caminhos da nossa mente. Há uns kms atrás ia desistir e agora estava decidido a terminar.

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finalmente!

19h30 Pico do Arieiro e parecia que tinha vencido a prova, tal era a euforia de missão cumprida.

A partir daqui seria a descer e apesar da enorme satisfação de quem me seguir em casa, esta fase preocupava mais as minhas pernas do que as subidas.

Faltavam agora cerca de 40 kms e a estratégia seria enfrentar uma etapa de cada vez, sem me preocupar com o que viria depois.

Tempo de jantar, mas aqui com alguma urgência, queria perder o menos tempo possível e avançar antes que a noite chegasse.

Voltamos a um ritmo mais rápido novamente em direção a Ribeiro Frio para depois enfrentar a subida do Poiso.

Começa a cair a noite e algumas descidas técnicas fizeram com que tivesse a primeira queda. A dificuldade do percurso, associada ao cansaço e à humidade que caiam a esta altura faziam as primeiras mossas.

Abranda-se um pouco o ritmo para não se repetir a proeza, mas estes 10 kms não eram facéis. E à terceira queda, tal foi o aparato que parti um bastão de carbono ao meio e a seguir a mim mais dois atletas no mesmo sítio. Parecia um choque em cadeia.

Depois de uma série de palavrões, respirar fundo e seguir viagem. Não querendo deixar para trás este companheiro “ferido”, sigo viagem com um um bastão inteiro e outro partido ao meio.

Faltavam cerca de 30 kms e agora seguia para a última grande subida, o Poiso, quase 4 kms e depois quase 9 kms até à Portela. Este CP tinha passagem obrigatória antes das 2h00 da manhã. Até aqui entrei em modo piloto automático, tentar manter um ritmo quase constante para chegar ao fim.

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já falta tão pouco…

Quase 1h00 e agora o próximo recolher obrigatório será pelas 8h00… na meta.

Aqui o cansaço era evidente, cheguei mesmo a adormecer por segundos a comer uma sopa.

Faltavam menos de 20 kms para concluir a prova e o ritmo agora tinha abrandado drasticamente e o sono estava presente, cheguei mesmo a adormecer a correr.

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olhei tantas vezes para esta tabela…

E foi a partir daqui que arranjei companhia até ao final, o Artur Pereira dos Salamandrecos estava a fazer os 115 kms e aparentemente a dormir também enquanto corria.

Conversa para nos mantermos acordados e tinhamos decidido seguir juntos até à meta.

A partir daqui não há muito a contar, correr à noite torna-se ainda mais duro porque estamos a correr no escuro, apenas iluminados pelos frontais. Sendo muito desgastante para qualquer motivação, não existindo focos de distração da mente. Pelo contrário temos de ter atenção redobrada para evitar quedas aparatosas.

Passadas mais de 20 horas o corpo já recusava comida e só pensava em duche e cama.

O trail tem disto, durante as últimas horas, arranjei um companheiro inseparável para concluir este desafio.

Tive pena de não apreciar a parte final do percurso na zona das levadas, apenas ouvia a água correr.

A última corrida com um sorriso gigante na cara e fim!!!

Sim terminei! Pelas 5h30 consegui chegar a Machico e atravessar a meta.

85 kms feitos!

Satisfeito com a missão cumprida. Há 15 dias atrás via o meu treino interrompido por lesão e nem 2 kms conseguia correr. Hoje fiz a minha maior distância em prova.

Mas faltava uma última etapa… a subida até ao estacionamento onde estava o carro. Subi mais rápido do que em toda a prova.

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mais subidas ???

Obrigado a todos que me apoiaram durante a prova!

Terminei após 22:28:47, 116º lugar da geral.

Resumo:

Nem vale a pena separar os pontos positivos dos negativos. A organização desta prova é 5 estrelas, desde a equipa de voluntários, a excelente marcação do percurso, os abastecimentos, a paisagem, a dureza do percurso. Uma prova recomendada para atletas bem preparados e que gostam de desafios duros( e com muitos degraus).

A voltar em breve para os 115 kms!

resumo do meu MIUT

(pelo menos até a câmera ficar afogada em humidade)




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chegada à meta

Boas provas em COMPANHIA!

* fotos Pedro Barbeitos

*música do albúm live on WFMU’s dark night of th soul with julie by Glockabelle

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