Carlos Sá na Arrowhead 135

Foi no mês passado que Carlos Sá enfrentou mais um duro desafio. Arrowhead 135, classificada com uma das 50 provas mais duras do planeta.

Três opções, bicicleta, esqui ou corrida e 135 milhas de prova em total autonomia, onde Carlos Sá ficou a pouco mais de 30 kms de terminar.

Mais uma lição de superação !

10978661_823491297710581_799072911037813449_n

Fica o relato impressionante na primeira pessoa:

“Arrowhead 135
É uma das provas mais extremas de corrida em neve; realiza-se todos os anos na cidade de International Folls, no estado Americano do Minesota, mesmo na fronteira com o Canadá.
É uma corrida de 135 milhas (cerca de 220km) que pode ser feita em bicicleta, skis ou em corrida. Tem que ser feita em total autonomia, em todo o percurso. Temos apenas contacto com três bases de apoio: um refúgio ao km 60, onde podemos comprar água ou alimentos, para não estarmos a perder tempo a derreter neve; outro ao km 120, onde a organização oferece água, chã, café,…; e o último ao km 185, uma tenda improvisada junto a uma estrada, onde nos são oferecidos, novamente, água e café. Tirando estes pontos, não vemos mais nada a não ser o trilho na neve, ladeado pela mesma, durante quilómetros sem fim.
Esta prova é famosa por ser a prova mais gelada do Mundo! No ano passado os corredores enfrentaram cerca de -40º. Em média anda nos -25º. Este ano a previsão era para temperaturas “amenas”, entre -5º a -15º. Quando soube fiquei satisfeito mas, mesmo assim, estava apreensivo, porque previsões são previsões.
Há muito que ouvia falar deste desafio. Quando os amigos Americanos me falaram que lá iam estar, comecei logo a ponderar ir. Tinha agendado a travessia da Gronelândia para Maio, com o João Neto e mais dois amigos Noruegueses e esta prova vinha no timming certo para testar algum material e preparação em ambientes extremos frios. Convidei o Neto e lá fomos para a aventura!
Para a Gronelândia temos que levar material para cerca de 12 a 15 dias, portanto, temos de levar um trenó de grande porte, onde se mete toda a logística, sendo arrastado por nós com todo esse material e alimentação. Temos de progredir em skis, na neve que chega a cair dois metros por dia.
Para a Arrowhead sabia muito pouco da logística e então tentamos levar tudo o que achávamos ser necessário. Em material tinha cerca de 15kg, mais 4Kg do trenó. Não tinha neve aqui para treinar e testar este esforço extra; tentei por uma só vez na praia, cerca de 20min. O arrastar na areia cria enorme fricção e risca as arestas do trenó; fiquei “assustado” com o esforço que era preciso fazer para arrastar aquilo!… Impossivel correr durante uma ou duas horas!
Faltava testar na neve e esperar que fosse melhor. Quando cheguei, na véspera da prova, fomos logo testar os trenós na neve. Estava tudo gelado com o frio; tínhamos sensação térmica de -25º! Realmente, o esforço era de um terço naquele gelo! Entretanto outra preocupação, não aguentava com as sapatilhas nos pés com aquela temperatura, decidi meter mais uma botas térmicas no trenó para, em caso de stress, trocar e caminhar. Mostrámos o material e fomos descansar cedo. Tinha sido uma viagem muito longa e, na madrugada seguinte, às 4 horas da manhã, estaríamos a pé para o pequeno-almoço e controle (a prova começava às 7h locais).
Ao acordar, mais uma apreensão; tinha nevado a noite toda e continuaria durante toda a manhã… como seria arrastar os trenós nestas condições???
Vamos para a linha de partida e começo lento mas entre os 10 primeiros. Começo a analisar os outros concorrentes: os trenós eram de pura engenharia: uns de empurrar, outros de formatos estranhos e uns metade dos nossos e com, provavelmente, metade do material; comecei a achar que esses seriam os atletas mais experientes.
Ao fim de umas duas horas, continuava a nevar, já começava a achar que não havia grande diferença, entre correr ali (com aqueles 30cm de neve fofa que continuava a cair) e puxar o trenó na areia. Devia ir em 4º ou 5º; colei-me ao meu amigo Harvey Lewis e fui com ele, em grande esforço, até ao controle no km 60, comer e beber era muito difícil naquelas condições. Tinha meio litro e umas barras e géis junto a mim, numa mochila e, quando precisava de mais, tinha que retirar o cinto do trenó, abrir a cobertura, sacos e ir às termos recarregar. Este esforço, repetido várias vezes, faz-nos arrefecer, perder ritmo, e descolar de com quem vamos, o que nos leva a saltar muitas vezes o momento de hidratar e alimentar corretamente.
Cheguei ao cp1 km60 já com grande desgaste. O Harvey entrou, comprou umas bebidas e saiu em cima dos dois colegas que iam na frente. Eu fiquei mais uns 10 min a recuperar e comer. Saí e fiz um esforço brutal para não passar a noite, sozinho; tinha o receio de me perder ou de me acontecer algo… Não se vê nada nem ninguém, a não ser nos postos de controlo, ou umas Snowmachines (motas de neve), a passar de vez em quando, que não pareciam da organização (por isso duvidava que passassem de noite).
Ao fim de duas horas consegui colar-me ao Harvey e a outro corredor. Lá fomos por longas horas; uma noite muito dura e onde o sono tomava conta de mim; o”jet lag” e o cansaço da viagem estavam a chatear-me!… Já não bastava correr naquelas condições…
As dores nos pés, gémeos e costas começavam a ser insuportáveis! Baixo o ritmo e, a cerca de 10 km do 2º cp, continuo sozinho; uma eternidade, estes 10 km! Lá cheguei e não pensava em desistir, mas começo a ver que, ou melhorava muito o meu atual momento físico (e ás vezes isso acontece), ou seria muito complicado… Comi uma sandes e bebi duas sopas; mais dois cafés para acordar tento cumprir com as recomendações do meu nutricionista da Nutrif e carregar na mochilha a coomida energética.

Começo a ficar preocupado com o meu colega de viagem (João Neto) ou estaria em grande forma na sua versão de siks ou poderia estar perdido.
Quando saio, ao fim de 20min, tinha arrefecido e era difícil progredir. Mas o caminho era para a frente! Junto-me a dois colegas que vinham de trás e tento ir com eles, mas ao fim de duas horas não aguentava o ritmo deles, eu tinha que fazer trote para os acompanhar a caminhar! Provavelmente, o peso e a diferença de tamanho de trenó faziam essa diferença de ritmo, aliado à técnica de progredir neste terreno.
Continuo então com grande esforço, sozinho por aquela mata fora. Entretanto nasce o dia. Lá tínhamos 10 horas de dia e 14 de noite. Sabia que a tenda do 3ºCP estava junto a uma estrada; às vezes tinha dúvidas se estaria no trilho certo, mas os rodados que encontrava das bicicletas davam-me essa confiança! Não queria perder tempo a consultar o gps; o esforço extra a que me obrigariam desengatar o trenó, abrir, pegar e ligar o gps, era uma grande esforço!…
Estava a mancar e a arrastar-me, cada vez pior e com dores insuportáveis! O ritmo era de caminhada muito baixa, começava a ver estradas e pessoas em muitos lados, tal era a ansiedade de chegar ao 3ºCP, já não fazia muito sentido o que ali estava a fazer; tinha mais duas provas no mês seguinte e provavelmente estava a criar lesões para umas semanas, tais eram as dores nos gémeos, tendões, os pés pareciam-me estar a ficar cheios de bolhas e todos rebentados, uma vez que a Berg não tem sapatilhas para estas condições, optei por umas sapatilhas para o gelo, com membrana de neoperene, mas as mesmas não são impermeáveis… Andei o tempo todo com os pés ensopados, o que provocou enrugamento da pele e dor intensa nos calcanhares, devido ao movimento instável da neve fofa, horas sem fim…
Aquele terreno é um autêntico carrossel, com subidas e descidas de cerca de 50 metros. Tinha ignorado o desnível quando vi o gráfico de altimetria, mas arrastar o trenó nestes 50 metros de D+, por vezes 300m de distância, é um esforço brutal! Por outro lado, nas descidas, travar o trenó é igualmente difícil e exige o trabalho de outros músculos… basicamente, arrebenta-nos todos wink emoticon!
Passei por momentos muito complicados, mas a única forma de me manter quente era continuar a mexer-me! Pensava que a tenda estaria em cada curva e cada curva feita era o desespero total! Nisto passa um concorrente de bike por mim e pergunto quanto faltaria para o CP, uma vez que tinha o gps na bike. Diz-me, entre 14 a 17milhas… Parece que me caiu o céu em cima! Como seria possível eu andar há tantas horas e faltar tanto!… Fiz a relação de distância e seria mais do que fazer Braga a minha casa… “Estou feito” (pensei) mais 4 a 5 horas naquele martírio!… “yes you can”, diz-me ele enquanto eu baixo a cabeça; não era falta de motivação, era incapacidade física, tento alternar trotes com caminhada para diminuir esse tempo mas era impossível, as dores eram brutais e estava a agravar as lesões, mas não tinha alternativa…
Continuo e fico a perceber porque apenas 30% termina este desafio brutal e o significado de se fazer isto com aquele trenó; estamos absolutamente por nossa conta, no meio do nada e esse material que levamos será o nosso refúgio em caso de desgaste ou lesão total. Finalmente, lá consigo chegar ao CP3! Já estava decidido a abandonar; já não me fazia sentido estar ali naquelas condições. Gosto da superação, mas superação em condições de dignidade, onde podemos progredir a ritmos razoáveis. Se fosse para me arrastar por toda a noite (que tinha acabado por cair novamente) para completar os últimos 35km, talvez tivesse força mental para tal, mas preferi salvaguardar a minha saúde e, provavelmente, estar apto para a Transgrancanária daqui a um mês.
Já tinha aprendido o suficiente nas piores condições e o desejo de voltar a este desafio brutal é grande! Quando chego ao CP3 km185 digo que quero desistir, que não consigo progredir; dizem-me “consegues sim”, só faltam pouco mais de 30km, não temos ninguém para te levar, tens que continuar ou chamar um táxi, mas vai ali para dentro da tenda e recupera-te e já vez que consegues! Começo a tremer por todo lado e meti-me dentro da tenda, aquecida com uma salamandra. Tomo café… e recomeça a dúvida “o que fazer?…”. Ao fim de meia hora tento levantar-me e mal conseguia mexer-me. Tinha arrefecido e seria impossível continuar… Pedi para me chamarem um táxi, dizem-me que um colega da organização vem ali em 30min, para aguardar. “Uff, estou safo”; lá chegou e levou-me para o hotel. Agradeci e, para surpresa minha, pede-me 20 dólares para o transporte!
Estava feito este desafio. Pretendo voltar e tentar concluir o mesmo; o principal objectivo foi alcançado: adquirir conhecimentos para a Gronelândia. Nem imagino como será andar uma dúzia de dias nestas condições, por outro lado, cada vez mais dou valor a algumas organizações que por cá temos; estamos ao nível do melhor que se faz lá fora!
Arrowhead 135. Jamais esquecerei! É das provas mais duras e extremas que já fiz!”

Bons desafios em COMPANHIA!

* Foto e texto Carlos Sá

Anúncios