Portugueses na Jungle Marathon 2014 – Parte 2

E assim terminou a participação da comitiva portuguesa na Jungle Marathon de 2014.

Consciente dos perigos derivados de uma organização duvidosa, Carlos Sá e Carlos Coelho decidiram abandonar a prova depois da terceira etapa.

Para saber vencer, também é preciso saber quando desistir.

Fica aqui o relato do Carlos Sá nesta aventura.

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Quando ouvia falar da Jungle Marathon pensava numa prova extrema, num local fascinante e remoto, logo, um desafio que um dia tinha que entrar na minha agenda.
Este ano, quando planeei a época, tive em conta o convite de um amigo Brasileiro para vir prestigiar a 10ª edição da prova.
Estava meio indeciso por causa da data; tinha de partir logo nos dias seguintes ao Grande Trail da Serra D’Arga e com o desgaste da Badwater e do Ultra Trail do Mont Blanc – seriam três das ultras mais difíceis do mundo, em menos de três meses -, sem tempo para treinar, recuperar e preparar esta aventura. Gostava muito de estar também na Diagonal des Fous, na Ilha da Reunião (uma espécie de UTMB, com grande número de “cracks”).
Decidi-me pela Amazónia porque era um sonho estar neste local um dia. De selva sabia pouco ou nada. Entretanto surgiu, em Fevereiro, a hipótese de correr uma prova idêntica na Costa Rica (The Coastal Challenge). Nada melhor para aprender e para preparar a Marathon des Sables (MDS) e a Jungle Marathon. Tentei levar comigo o Marco Neiva para fazer fotos e vídeos mas pediram-me 12.000€ .

A inscrição na Jungle Marathon custa mais de 3000€ + viagem até Santarém (Pará – Brasil), alimentação para 8 dias,…. Achei generosa a oferta da minha inscrição mas, pensando bem, estavam a dar-me água para sete dias (que era a única oferta por parte da organização durante a prova). Entretanto o Carlos Coelho, depois de viver uma grande experiência na MDS, fala-me que gostava de um desafio na selva e que estava indeciso entre a Costa Rica ou a Amazónia. Eu prontamente lhe respondi que adorei a prova na Costa Rica, mas achava que a Jungle ia ser mais “forte”. E como eu ia lá, fazia-me companhia.
Fiz alguns exames nos hospitais CUF; a Nutrifit preparou-me um kit alimentar, enfiei tudo na mala e fui para Lisboa de comboio. A viagem começou com um atraso de 6h no voo. Deu para conhecer amigos do Carlos Coelho e rever o que me faria falta. Tinha o essencial e ia com certeza ter uma grande aventura.
Estava motivado e com a sensação de que ia ser a minha aventura do ano! A viagem foi dura: várias paragens, escalas; finalmente chegamos a Santarém. Fiquei impressionado com a pobreza desta zona, mas uns amigos do Carlos Coelho, que gentilmente nos receberam no aeroporto e levaram para sua casa, garantia que era uma cidade segura e sem problemas. Descansamos ai uma tarde e à noite lá fomos para Alter do Chão – uma vila turística com muita praia. Entretanto embarcamos numa viagem de 11h de barco até ao local de partida, subindo o rio Tapajós.
Montamos as redes no barco e tentamos dormir. Era a minha primeira de oito noites que tinha de dormir na rede. Chegámos finalmente ao destino, à casa do Sr. Júlio – um indígena que tinha uma casa em tijolo numa praia paradisíaca. Aí, a directora da prova, uma Irlandesa a viver em França, recebia os atletas.
Uns paus preparados para o efeito seriam o suporte para as nossas redes. Eu perguntava-me como caberiam ali mais de 80 redes… Uns quase em cima doutros, lá nos arranjámos…
Um dia de aclimatação e verificar o material e começo a ver a falta de profissionalismo da organização, mas estava motivado para que começasse rápido.
Na primeira etapa, para além de ter de andar junto com pelo menos um corredor para não correr riscos com as onças (jaguares), e outros animais. Tinha que parar 15minutos a cada controle de +/- 6 em 6km’s.
Linha de partida e a directora pregunta se toda a gente tem água. Obrigavam a uma capacidade de 2,5 litros. Eu tinha 2 litros mais uma garrafa de 0,5 litros vazia, para fazer os 4km’s até ao controle. A directora só me controla a mim, e diz que tenho que sair carregado senão levava já uma hora de penalização. Expliquei que pensei que era como no deserto (MDS), onde podia levar entre 1,5 a 3 litros, dependendo do ritmo dos atletas, e que era um absurdo 2,5 litros para 4km’s quando estamos hiper hidratados.
Percebi logo a falta de inteligência da Srª, a resmungar comigo e a dizer que podia “jogar a água no chão ao fim de 200m mas é assim e ponto”. Começou a “marcação”.
Em cada controle por rádio era comunicada a chegada dos atletas. Os mais rápidos eramos eu, um guadalupense e o brasileiro Rodrigo Souza. Como nós tínhamos um rapaz que fazia de “guia e segurança”, a correr com botas “estilo de trolha” (as mesmas aguentaram apenas 10km’s), correndo o miúdo, com grande sacrifício, descalço o resto da etapa, fiquei chocado e estávamos sempre parados à espera do rapaz. Logicamente só aguentou o primeiro dia!…
Nos controles ouvia-se a directora a mandar revistar-me a água a toda a hora. Comecei a ficar indignado por só me controlar a mim, parecia-me aquele estilo de pensamento: “se corre muito tem que haver motivo, ou vai mais leve, ou faz batota, ou toma comprimidos milagrosos,….”.
A minha estratégia era ir desfrutando as duas primeiras etapas, junto com os outros dois colegas, esticando um pouquinho a dois ou três km’s da meta e ganhando alguma vantagem.
Terceira etapa: já não temos que parar os 15 minutos nos controles, e ai a minha estratégia seria ir com o guadalupense até ao último controle, e ai acelarar e ganhar as etapas e algum tempo. Andar sozinho era demasiado arriscado. Só tinha pessoas nos controles e até, em certas zonas, os indígenas não se metiam! Estava a correr alguns riscos; nunca imaginei que assim fosse, pensei ter batedores a toda a hora, mas isso custa uns míseros 50 reais (cerca de 15 euros), por dia, por pessoa, e a organização queria ganhar o máximo possível. Começou já, em anos anteriores, com esta política e a comprar guerras com as populações locais, querendo apenas pagar 30 reais sem comida e as pessoas estarem praticamente 24h a trabalhar.
Na terceira etapa algo insólito acontece. Uma garrafa que metia no bolso traseiro da mochila caiu. Chego ao controle e mais uma revista. Fiquei apavorado quando não vi a garrafa. Anotaram e transmitiram a falha. Fiquei à espera pelo segundo e terceiro atletas, a ver se tinham encontrado, mas nada! Um voluntário oferece a dele e saí a correr atrás dos outros dois; afinal o que vinha em quarto tinha-a encontrado.
Tinha terminado a etapa com 8 minutos de vantagem para o segundo. Era uma festa ao chegar, com os locais e alguns elementos do staff, alguns até improvisados porque corriam só a maratona na quarta etapa, mas tinham que andar connosco desde o início e pagar os mais de 3000€ na mesma. A directora nunca nos recebeu; estava só a observar, sempre com o seu ar de desconfiada e mau feitio.
Estamos no meio de uma povoação indígena. Fui tomar banho e, quando fui montar a rede, estavam já dois colegas no acampamento. O Rodrigo (2º classificado na edição de 2013) tinha comprado três cocos; foi – lhe dito que, tal como no ano anterior, era permitido comprar água de coco. O Rodrigo oferece-me um e pergunto se podemos mesmo: “sim podemos”, diz ele. Ao lado lá estava a vendedora ambulante com os cocos.
Passado umas horas, com grande parte do acampamento a beber coco e outros a comprar bolo nas casinhas, tão felizes que atenuava a brutalidade destas primeiras etapas, sempre enfiados dentro de lama, água e desníveis abruptos (para mim era duro mas estou habituado a isto, mas 80% das pessoas estavam desfeitas). Os últimos iriam demorar mais de 15h para fazer uma maratona.
Entretanto o Rodrigo vai agradecer por “liberar a água de coco”, a directora da prova começa a insultá-lo e a dizer que estava desclassificado. Ele pensou que ela estivesse com algum “stress” e que estava a “descarregar”. Nisto ela aparece no acampamento a insultar a vendedora, que não tinha autorizado este ano…. e “ia ser todo o mundo penalizado”.
Aquilo passou. Começo a questionar-me porque é que eu ali estava, mas aparte daquele “circo organizativo”, a paisagem era do melhor que alguma vez tinha visto e as pessoas locais fantásticas!
Parto para a maratona com cerca de 15 minutos de vantagem, mais que suficiente para ganhar a prova, se fosse inteligente e não cometesse erros. Ao passar nos controles eu ficava a descansar, hidratar e na conversa com os bombeiros que estavam muito contentes comigo. De seguida, abria a passada e ia buscar o meu colega, que não era rápido mas muito certinho. No meio da prova um bombeiro diz-me: “você ainda está curtindo mas na etapa longa vai ter de dar gaz porque parece que foi penalizado”! Fiquei louco e disse que não podia ser! Cheguei à meta mais uma vez com larga vantagem. As senhoras do staff tinham uma medida de um copinho de plástico para nos dar um sumo no final. A mim às vezes davam mais que um, estavam encantadas como eu ganhava tudo e ainda por cima falava “quase Português”!
Dirigi-me à organizadora e questionei-a sobre o que tinha ouvido falar acerca da penalização. Ela diz: “sim, 1 hora por deixar cair a garrafa, mas não se preocupe porque os outros vão levar muitas mais no final por beber coco!”.
Eu disse que isso era uma injustiça e que também tinha bebido. Até aceitava a da garrafa, mas a do coco era impensável! Queria saber quanto era a penalização, mas ela disse que só no final me diria!
Fiquei na dúvida se ela estava meia louca ou a gozar connosco, mantendo aquele ar sério, para mostrar que estamos na “prova mais difícil do Mundo”, segundo a CNN.
As etapas longas normalmente costumam a ser de 105km’s. Este ano estavam anunciados 140km’s, uma verdadeira loucura se tivesse um percurso parecido com os anteriores. As duas primeiras etapas tinham sido arrasadoras para a maioria, onde alguns não morreram por sorte!… Um espanhol subiu uma árvore quando deu de frente com uma onça (jaguar) a 10 metros. Perdidos a todo o momento, nunca se encontrou ninguém para além das pessoas que estavam nos controlos. Outros falavam dos ataques de raias que podem furar uma perna e levar anos a curar; picadas de vários insectos e terem que se arrastar até ao controlo para receber assistência; meterem-se em rios, ao fim da tarde, já escuro, onde o frontal mostrava os olhos reflectores dos predadores – jacarés entre outros -, mas não tinham como sair dali sem arriscar. Toda a gente estava assustada e desfeita. Não tinham feito 140km’s ainda em quatro dias e, no briefing da etapa longa, a directora da prova anunciou que afinal seriam entre 147 e 150km’s, para acabar numa praia. A partida seria às 4h da manhã, começava com uma travessia de rio a nado de 200m; a essa hora lá estariam os nossos predadores todos por perto: piranhas, jacarés, jibóia, raias, enguias eléctricas,….
Os colegas brasileiros, já conhecendo parte do percurso, disseram logo que seria “uma loucura!”. Grande parte dos atletas iriam passar, perto do km 70, dentro dum riacho, com 1km de distância, com a água pelo pescoço, e também passariam na zona das onças onde, mais uma vez, era proibido correr sozinho…
Estava a ver demasiado risco e loucura a mais, mas a directora mantém-se firme. Para além de não ser corredora, não aceitava qualquer opinião. Tudo o que era dito era visto com forma de a atacar, e não de proteger a corrida dela e a vida das pessoas.
No final do briefing eu, o Carlos Coelho e os dois brasileiros – Gustavo e Rodrigo -, tentamos mais uma vez falar com ela, mas fugia de nós. Aí, o Gustavo disse que não partia, o resto das pessoas tinham que avaliar e decidir em consciência. Eu disse que estava com ele nessa decisão. Eu ainda tinha a questão da penalização de 1hora por causa da garrafa, o que me obrigaria a correr a parte final da etapa, sozinho, de noite. Fomos, mais uma vez, junto da directora da prova, perguntar se sempre mantinha a ideia da penalização, ao que ela respondeu que levamos os quatro duas horas de penalização por termos bebido a água de coco e, eu, mais 1hora! Nem respondi. Atirei a tolha ao chão… Isto não estava a acontecer! Desistimos os quatro! Ela virou-se para nós, às 23horas e disse-nos para irmos embora, que já tinha pedido um carro; não queria que passássemos “energia negativa e não influenciássemos os outros”.
Foi curioso ver alguns atletas, destroçados e no limite das suas capacidades físicas, mas que iriam até onde pudessem, obcecados com a medalha… a falta de experiência não lhes permite avaliar o risco nestas situações…
Chegamos a Alter do Chão depois das duas da manhã, sem ter onde dormir. Felizmente encontramos um hotel!
Triste e desiludido, a pensar como é que alguém me convida e me trata desta forma, numa prova que parecia ter tanto prestígio!
No dia seguinte soubemos que, ao fim de 6 horas de prova, a diretora decidiu encurtar a etapa em cerca de 40km’s, uma vez que até os indígenas se recusaram a meterem-se no meio da mata e do rio. A última etapa passou também de 16km’s para 8km’s, porque os últimos atletas tinham feito 103km em 50 horas! Uma loucura total e incoerência do início ao fim!
No final, fizemos questão de receber os atletas e pessoas da logística. Senti-me emocionado com o chefe dos bombeiros, a oferecer-me a camisola dele e a dizer que estavam mais tristes que nós!
Toda a gente estava do nosso lado e dizem ter sido, mesmo com as alterações de última hora, um milagre!
Termina assim a minha loucura aqui na Selva!
Valeu pelos novos amigos e admiração de muita gente! Nem só de boas experiências se vive!
Obrigado a todos pelas mensagens de apoio!”

Boas corridas em segurança e boa COMPANHIA!

Fonte: Carlos Sá-Ultra Runner Facebook

Foto: Jungle Marathon

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